Pesquisa diz que cloroquina não é eficaz contra Covid-19 e aumenta risco de arritmia

Uma pesquisa científica realizada com 96 mil pacientes apontou que a hidroxicloroquina e a cloroquina não apresentam benefícios no tratamento da Covid-19. Os resultados foram divulgados, nesta sexta-feira (22), na revista The Lancet. O estudo mostrou que também não há melhora na recuperação dos infectados e que existe um risco maior de morte e piora cardíaca durante a hospitalização. Essa pesquisa é a primeira a analisar o uso desses medicamentos em larga escala.

Realizada por um grupo de cardiologistas, o foco da pesquisa foi identificar arritmias cardíacas e mortalidade hospitalar em pessoas sob o efeito dos medicamentos. Ao todo, 96.032 pacientes participaram dos testes, mas apenas 15% foram medicadas. O estudo comparou os resultados de 1.868 pessoas que receberam apenas cloroquina, 3.016 que receberam só hidroxicloroquina, 3.783 que tomaram a combinação de cloroquina e macrólidos (uma classe de antibióticos), e mais 6.221 pacientes com hidroxicloroquina e macrólidos. O grupo controle, que serve para comparação e não fez uso dos medicamentos, é formado por 81.144 pacientes.

No final do período de análise, que durou de 20 de dezembro de 2019 a 14 de abril de 2020, os cientistas concluíram que as pessoas tratadas com cloroquina ou hidroxicloroquina apresentavam maior risco de morte quando comparadas àquelas que não receberam o mesmo tratamento. Os resultados apontaram que havia morrido 1 a cada 11 pacientes do grupo controle (9,3%); 1 a cada 6 pacientes dentre os que apenas usaram cloroquina (16,4%) ou hidroxicloroquina (18%); 1 a 5 pacientes dentre os que usaram cloroquina ou hidroxicloroquina com macrólidos (antibióticos), sendo 22,2% no caso de uso de cloroquina com antibiótico e 23,8% na combinação de hidroxicloroquina com antibiótico.

O grupo informou que condições de saúde pré-existentes, como diabetes, doenças cardíacas, índice de massa corporal (IMC), doenças pulmonares e tabagismo não foram consideradas, já que poderiam influenciar nos resultados. Ainda segundo o artigo, os pacientes medicados com as substâncias apresentaram também risco maior de desenvolver arritmia cardíaca. A maior taxa foi vista em pacientes que receberam a hidroxicloroquina em combinação com os antibióticos: 8% ou 502 pessoas em um grupo de 6.221. O grupo controle, que não recebeu as substâncias, teve um índice de 0,3%.

Apesar da indicação de ineficácia dos protocolos que usam combinações de cloroquina e hidroxicloroquina, os autores do levantamento afirmam que a análise não é definitiva, e que mais estudos serão necessários para o diagnóstico final do uso das drogas.

Protocolo no Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou na quarta-feira (20) que as substâncias podem causar efeitos colaterais e não têm eficiência contra doença. No mesmo dia, o Ministério da Saúde do Brasil divulgou um documento que orienta o uso da hidroxicloroquina no país em pacientes infectados pelo novo coronavírus, mesmo nos casos mais leves. Na quinta-feira (21), uma nova versão foi editada com a assinatura de secretários da saúde da pasta. 

A mudança no protocolo foi realizada a pedido do presidente Jair Bolsonaro, defensor da cloroquina no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus. Os dois últimos ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que deixaram o governo em menos de um mês, se mostravam contrários ao protocolo da cloroquina e a discordância com o presidente pode ter motivado ambas as demissões.

O texto do ministério mantém a necessidade de o paciente autorizar o uso da medicação e de o médico decidir sobre a aplicar ou não o remédio. A cloroquina não está disponível para a população em geral.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Amanda Carvalho